Arnaldo Jabor

Entrevistado por Ismail Xavier

 
 
Fernanda Montenegro em A falecida
 

Cinema x teatro

Eu dirigi pouco teatro, duas peças... três. Mas prefiro dirigir cinema, porque você tem mais controle. No teatro, por mais que você dirija o ator, ele nunca te obedece. Você vira as costas, ele inventa. E como eu sou obsessivo, odeio que mudem... No cinema você pára ou corta; agora é close, vamos fazer assim. Então há um controle maior sobre o ator.Você pode enriquecer muito mais, porque uma pessoa nunca está apenas em "plano geral", como se diz no teatro. Teatro é chato. O montador Mair Tavares me dizia isso: "Acho o teatro chato porque é tudo no plano geral". Isso é genial! No cinema você aproxima, filma dentro da boca do cara, filma de costas, de cima. Com a câmera, você aprofunda o significado das falas e o que o ator tem a dizer, ou o que ele tem para mostrar, ou o gesto ou o que for. A câmera sublinha, critica, é uma espécie de alter-ego do ator, ela faz um contraponto com ele. De certa forma, ela é um interlocutor do ator, é como se fosse outro personagem. Você tem o ator e a câmera. No teatro, o ator está mais sozinho, ele só interage com atores. No cinema, a câmera tem uma função de interação mesmo. É como se ela fosse um personagem.

Darlene Glória e Toda nudez será castigada

Foi o Paulo Porto que me disse: "Você não quer conhecer Darlene Glória?". Eu estava procurando atrizes, então eu falei: "Manda aqui". Quando ela entrou na sala, depois de três frases, eu disse: "É ela, é a Geni! É claro que é a Darlene Glória!".

Na época ela era uma pessoa muito problemática, estava numa grande crise. Ela tinha uma vivência marginal, tinha acabado um namoro com aquele cara do Esquadrão da Morte. Ela até chegou a ver uma execução, que ele a levou pra ver de longe. Então ela era uma mulher da pesada, que trouxe para o filme uma verdade vivencial que ninguém tinha. Só ela. Ela trouxe o cabaré, a experiência de loucura pessoal. Ela estava filmando e viajando, bicho. De ácido, botando pra quebrar. Tinha dias que era barra pesada segurar a onda dela. Mas mesmo assim valia a pena, porque mesmo doidona ela fazia o papel extraordinariamente bem. Ela dava uma carga de verdade, que "imantou" o filme todo.

A única tensão que havia era entre ela e o Paulo Porto. Ela sacaneava ele o tempo todo. Naquela seqüência célebre em que ele fala "Bate, Geni!", eu mandei fazer uma cena bem sádica: ela começa a bater nele e vai enlouquecendo. Ela estava viajando de ácido nessa cena. Então ela morde o beiço, o lábio do Paulo Porto, na hora de beijar, e tira sangue! E o Paulo Porto agüentou em cena, está no filme, é o plano que está no filme. Quando acabou, ele queria bater nela. Saía sangue. Ela é foda!

A irmã da Darlene morreu no meio do filme; tanto que tem uma seqüência — quando ela vai para o aeroporto, vê que o menino fugiu com o bandido e sai andando e fica chorando em volta das pilastras —, em que ela está chorando mesmo, por causa da morte da irmã, que tinha ocorrido dois dias antes.

É isso, ela deu o sangue ao filme, ela deu ao
filme uma verdade que ele talvez não tivesse com outra atriz, porque ela não estava interpretando uma personagem, ela estava sendo a personagem que ela era na realidade. A Darlene era a Geni na vida real. Não era puta, mas era a Geni. Então ela jogou tudo aquilo dela no filme.A maior riqueza que o ator tem pra dar é a sua vida pessoal, é o que ele viveu. Não tem que entrar em nada.

A Darlene oscilava entre a puta e a santa, vamos dizer assim. Ela não sabia se era puta ou santa. E é uma oscilação muito bacana no filme, isso está lá. Depois ela optou por ser santa e virou evangélica, casou com um pastor evangélico, com quem ficou muito tempo. Só saiu dessa agora, de uns tempos pra cá. Mesmo assim nunca mais vi a Darlene. Ela é um exemplo extraordinário da carioca inteligente, bonita, maravilhosa, mas que teve uma história de vida que a obrigou a viver na margem da sociedade. Além de tudo era uma grande atriz, de uma fotogenia extraordinária, no sentido cinematográfico.

Adriana Prieto e O Casamento

Com a Adriana foi outra história. Eu achava a Adriana deslumbrante de linda. Ela soube que eu ia fazer O casamento depois de Toda nudez, saiu em algum lugar, e ela me procurou. Eu mal conhecia a Adriana e ela disse: "Tudo que eu quero na minha vida é o personagem da Glorinha". Ela queria fazer. Então eu falei: "Pois é, vamos ver, pode ser que sim, não sei". Porque o Paulo Porto, que era produtor junto comigo, implicava com o Carlinhos Prieto, irmão da Adriana. E ela de certa forma impunha o Carlinhos como mediador. Mas ele era exigente, cheio de frescura e não queria que ela participasse. Mesmo assim, acabei conseguindo botá-la no filme, sem o Carlinhos. E acho que ela está muito bem. Mas quem a dublou foi a Norma Blum, porque a Adriana terminou o filme e morreu. Bateu o carro, sete dias depois.

Ela era mais impulsiva, instintiva, do que trabalhada. Não era uma atriz com os mesmos recursos que a Darlene, mesmo que de uma forma primitiva, porque a Darlene nunca estudou porra nenhuma. Mas a Darlene tinha uma sensibilidade muito ampla, mais vivida que a Adriana. A Adriana tinha 24, 25 anos, quando fez o filme. Era uma moça bonita, linda, com uma carga de violência brutal. Ela tinha uma violência interna, uma revolta que eu não sei bem o que era. Um ódio. Ela se sentia muito usada, inclusive pelo namorado. Era muito bonita e as pessoas ficavam só querendo comer ela. E ao mesmo tempo ela era muito solitária. Tem uma cena no filme, quando o André Valli diz que vai dar o rabo na frente do pai paralítico, em que ela agarra o André e o estapeia. Ela agarra o André, faz assim [gesticula], e ele vira no ar e cai no chão. Uma coisa impressionante, de verdade.

Sempre que eu chegava na filmagem, a primeira pergunta que eu fazia era: "A Adriana já chegou? Pra maquiagem". Porque eu tinha medo que ela morresse. Ela estava tão desesperada, ela estava numa crise de namoro, não lembro com quem era. Ela saía com o carro, ela tinha um Volks, saía com aquela porra daquele carro quando terminava a filmagem e eu falava: "Adriana vai devagar!". Mas ahhhhhhhh!, acabou batendo. Numa porra de um carro de polícia. Não lembro o que aconteceu, ela morreu numa esquina do Rio. Foi um troço terrível. Porque inclusive no filme tem uma seqüência em que ela tem um pesadelo e sonha que está morrendo, depois de um aborto, no mesmo lugar onde ela morreu de verdade, que era o Miguel Couto. E ela foi colocada na mesa do necrotério onde ficou o namorado dela no filme, que morre num desastre.

Realmente, esse filme... até gosto de bater na madeira. Paulinho já morreu, morreram todos. Paulo Porto, Adriana e Carlinhos, morreram os três, puta merda. Esse filme é um filme fúnebre. Acabei de filmar e sete dias depois a Adriana morreu. Morreu o dono da casa onde eu filmei. Morreu o cara que fez o som, de 28 anos: teve um ataque cardíaco e caiu morto. O sócio do meu filme se suicidou, o produtor Sidney Cavalcanti, meteu a cabeça no forno, tinha 27 anos de idade. Morreu Abel Pera. Quem mais morreu?

Sônia Braga e A Falecida

A Sônia Braga é gênial. Ela está muito bem no filme do Neville [A dama do lotação, de Neville D'Almeida]. Não é uma atriz de teatro, é uma atriz de cinema. Ela tem a alma de nitrato de prata, porque ela muda quando entra em cena. É impressionante. Ela fica mais alta, mais bonita, inteligente, tudo. E na vida real ela não é uma pessoa com essa luz. Pelo contrário, é uma pessoa com problemas.

A falecida, não se pode negar... Só não gosto dos últimos cinco minutos, que o Leon quis filmar ao vivo, com som de verdade lá no Maracanã; estragou a porra da cena, ficou uma merda. Mas era um dos primeiros do Leon, foi um pequeno equívoco.

Tudo muito bem filmado pelo Leon, com uma fotografia extraordinária do Zé Medeiros, ele era um cineasta também. Ele ajudava a compor, a decupar, participava da narrativa, da criação do filme. Era uma coisa muito visível isso. E é brilhante. O Leon é um cineasta de um talento extraordinário, que foi um pouco prejudicado pelo excessivo marxismo dialético da cabeça dele. Ele vivia aprisionado na dialética. Mas é um cineasta de um talento enorme. E o Zé Medeiros era um grande fotógrafo, que agora vai ser redescoberto.

Filmografia

O casamento foi um filme feito sem dinheiro. O Paulo Porto sempre estava duro. A gente não tinha dinheiro e a Embrafilme estava numa daquelas crises, a gente tinha que filmar na pauleira. O filme foi um pouco malhado, feito na correria. Mas tem algumas seqüências de que eu gosto muito: a seqüência na praia, que hoje em dia está com uma música bonita; gosto muito da seqüência da bicha com o pai, toda aquela parte do André Valli, um show de personagem.

Mas é um filme mais de crise, eu já estava em crise. Não por Nelson, que eu amei até o fim da vida. Eu estava me sentindo um pouco aprisionado nas peças de Nelson, então O casamento é um filme mais crítico do próprio universo de Nelson. É um filme meio operístico, excessivo. Desagradável, no sentido do Nelson Rodrigues; desagradável mesmo. Se bem que agora eu dei uma remontada nele, está mais digerível. Essa versão que existe agora no mercado não é adocicada mas é uma versão mais bacana. Melhorou muito. Mas o filme não é tão bom como o Toda nudez, que é um dos meus filmes que eu mais gosto.